Metonímia Exacerbada

setembro 26, 2009

As pessoas perdem belas canções de amor por puro egocentrismo.


Chega de Saudade! (manifesto anticomemorativo dos 50 anos da bossa nova)

outubro 12, 2008

Jackson do Pandeiro tem sua valorização diminuída na música brasileira perante os artistas da bossa nova. Sendo seu nome uma unificação entre o estrangeiro e nacional, em sua originalidade mais fiel, sua música poderia muito bem atender aos conceitos bossa novistas. Mas, não é este o caso. Pois, o próprio entoava que “só ponho bebop no meu samba quando o Tio Sam pegar no tamborim, quando ele pegar no pandeiro e na zabumba, quando ele aprender que o samba não é rumba”.

Na bossa nova, os artistas da música popular brasileira não esperaram que o Tio Sam pegasse no tamborim. Eles acabaram botando o bebop no samba, fazendo o país, e o mundo, engolirem um pseudo-jazz, disfarçado de música brasileira.

A letra é da música ‘Chiclete com Banana’, de autoria de Gordurinha e Almira Castilho,  que somada a musicalidade de Jackson, demonstra como a bossa nova não soube valorizar as estruturas harmônicas e melódicas da música brasileira. Construíram sua base sobre a égide do jazz, gênero americano. O conceito de Jackson foi seguido por artistas no país, que conseguiram grande repercussão dentro e fora das terras tupiniquins: Alceu Valença pegou o forró de Luiz Gonzaga e misturou com os shorts das meninas, e atiçou Oropa, França e Bahia; Lenine ao consumir e mastigar Aipim junto com Coca-Cola incitou toda a Europa com seu som caracteristicamente brasileiro e contemporâneo; e Chico Science que botou discman no caranguejo em meio ao caos da lama, fez as regiões ao sul do país reverenciar a cultura do mangue. A música desses artistas foi digerida, e resultou em uma nova identidade musical da era globalizada, onde a fusão do original com o importado não é apenas mais um produto corriqueiro dentro do cardápio exótico do consumo mundial, assim como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro botaram o coco para ralar, levando para o país inteiro um som genuinamente brasileiro.

Enquanto houver o valor supra-estimado da bossa nova como característica da genuína música brasileira, precisaremos de mais 50 anos para valorizar o que é de raiz e o que pode até ter influências de outras culturas, mas desde que utilizamos isso para criar algo caracteristicamente brasileiro.


Rolling Stone Brasil não tinha concorrentes até a última edição

junho 17, 2008

Eis que no mês de junho de 2008 chega em minhas mãos a edição 21 a versão brazuca da revista mensal Rolling Stone. A edição gringa, há pouco tempo atrás – leia-se anos 90 – produziu uma matéria com a banda Red Hot Chili Peppers digna de capa. Eles estavam no primeiro nirvana de sua carreira, devido ao maravilhoso, e um dos melhores álbuns daquela década, Blood Sugar Sex Magic, além de suas apresentações serem alucinantes. Eles tinham em suas mãos um dos melhores guitarristas dos anos 90, John Frusciante. E era muito comum a banda se apresentar apenas de cueca, ou, num desgoto atrevido, um de seus integrantes, geralmente o baixista Flea, tocava como veio ao mundo.

Entramos em um parêntese histórico: eis que a revista Rolling Stone gringa resolve dar capa a esta banda. Obviamente que, com todo o sucesso que a banda obteve devido à alta qualidade do material que produziram, estar na capa de uma revista de cultura seria algo natural, tanto para a banda, quanto para os quesitos de noticiabilidade que atuam na produção jornalística, e muito mais para os fãs da banda, ou mesmo para aqueles desavisados que ainda desconheciam o vasto currículo dos Peppers, cheio de acontecimentos absurdos. A Rolling Stone não exitou e fotografou os integrantes da banda nus na capa, fato até comum para a publicação que começou essa ‘estratégia’ logo no início de suas publicações, com John Lennon… …e este fato resulta em outra história passível de discussão, mas não é o caso aqui agora.

Eis que a pretensão da edição brazuca da Rolling Stone, agora aqui em “tempo real”, resolveu lembrar daquela capa, e fazer um layout similar para sua edição 21. Até aí nenhum problema, afinal de contas, há tantas revistas no mercado que fazem isso descaradamente, às vezes não só por falta de capacidade, mas também por intencionalidade, temporalidade, preguiçosidade, cafajestinagem, inescrupulosidade, descriatividade, refluxoridade, apostabilidade, subjetividade, et coetera e tal. A edição brazuca estaria fazendo algo similar a partir de sua própria matriz.

O problema está na escolha da banda para fazer isso. NX Zero à esquerda!?! Uma bandinha pop do chamado rock nacional produzida pelo ‘experiente’ Rick Bonadio (responsável por vários terrores que assolam de tempos em tempos a música brasileira, como Rouge e seu similar na versão masculina), que é adorada pela maioria dos (pré)adolescentes de todo o país, e alguns acéfalos que cresceram um pouco, mas só fisicamente, e que já tem até poder de voto e de compra – claro, com ajuda de uma boa mesada do acéfalo que não utilizou camisinha – mas que não trabalham para acrescentar alguma cultura que mereça crédito é algo que, teoricamente, não deveria ser recorrente para este público. A edição nacional, além de copiar a capa feita nos anos 90 – época que essa turma que adora NX Zero à esquerda utilizava fraldas (ou se minha memória, e a matemática não falha), ainda eram uma porra de um esperma no saco do imbecil citado pouco atrás – optou por colocar um produto midiático do naipe do NX Zero à esquerda, invés de utilizar de material muito mais digno de uma capa, tanto por quesitos de noticiabilidade, quanto de qualidade de conteúdo, abordagem, cobertura, e o escambal, mas que não serviriam plenamente aos seus anseios capitalistas. O leitmotiv da questão é abranger o público, com isso, aumentar lucratividade. É que o critério de noticiabilidade se volta apenas para o que venderá mais nas bancas, e daí a bandinha geração-nova-cara-da-MTV ganha a capa, simplesmente porque é vendável, qualidade aqui é discutida apenas no que se refere à vendagem.

Com esse feito ‘nada’ capitalista, a dignidade propagandística da capa para o conteúdo total da revista foi posta de escanteio. É obvio que há melhor conteúdo no interior da publicação que possa suprir grande parte das “leis da noticiabilidade”.

A edição do mês de uma famosa revista de segundo escalão voltada para o público feminino (pré)adolescente, que costuma projetar sua capa com layout de extremo mal gosto, blasé, mas também utilizando de critérios de noticiabilidade, colocou a mesma NX Zero à esquerda vestida em cores tipicamente femininas para a ‘produção’ de sua ‘atrevida’ capa.

Chego à conclusão de que a “conceituada” revista de cultura e comportamento, e por que não dizer jornalismo pop, e mesmo com este termo não justificaria plenamente a escolhida capa, resolve brigar por um novo público.

O TODO É BEM MAIOR DO QUE A SOMA DAS PARTES

Ao colocar na capa a banda NX Zero à esquerda, a Rolling Stone Brasil desconsiderou o complexo do material de sua edição. Pois, há mais conteúdo concreto, como por exemplo: matérias sobre desmatamento da Amazônia; sobre a política nacional; a reprodução do ‘arquivo’ da versão gringa com o ‘puritano’ Charles Bukowski (que por uma ‘mera coincidência’ há um lançamento de uma coletânea de textos do escritor nas prateleiras das livrarias do país); um retrato atual sobre a Angola e um escambal de assuntos mais interessantes que uma matéria com o NX Zero à esquerda – tudo bem, os caras estão lançando um novo álbum, mas há outros tantos artistas de qualidade não duvidosa que também estão com seus novos registros musicais no mercado, o que também poderia justificar uma capa. Mas, no quesito escolha da personalidade artística que aparecerá na capa da
Rolling Stone, o histórico já evidencia um suposto direcionamento jocoso, pois, além do que do NX Zero à esquerda, Ivete Sangalo, Faustão, Grazi Massafera, já foram capa da publicação. O que resultou em algumas inúmeras críticas dos apocalípticos e até elogios dos ‘integrados’, como se pode conferir sessão de cartas das edições que sucederam as que continham as tais “personalidades”, coisa mais manipulável no mundo, mas também mais sincera, por mostrar como a manipulação da Agenda Setting é funcional, mostrando para o público o que ela deve saber… …mas isso, já pode ser uma outra aventura da mesma história.

Ou seja, o corpo editorial da Rolling Stone Brasil preferiu priorizar a lucratividade certa, colocando a NX Zero à esquerda como capa, invés de escolher algum outro conteúdo da edição que contextualizasse em qualidade e temática com a maioria dos assuntos publicados na revista, representando muito mais sua totalidade, do que esta merda de bandinha que, no máximo, ajudará a publicação a angariar um novo público.

PROSPECÇÃO MIDIÁTICA

Voltando mais uma vez no tempo, mais precisamente no final de 2006. Quando a Rolling Stone entrou no mercado brasileiro, ela promoveu uma democrática disputa – que muitas vezes é mais saudável para a elaboração de conteúdo – com a reencarnação da morta-viva Bizz, fazendo com que esta – numa pífia tentativa no quesito conteúdo, mas nobre em tentar dar sobrevida a um difundo que não foi enterrado, mas já a caminho do vale das trevas da imprensa tupiniquim, e que por sinal tem um vasto número de jazidos – baixasse seu valor de venda para equiparar-se a sua nova concorrente, trazendo bem menos suas mal diagramadas páginas, enquanto zumbizava pelas bancas trazendo um conteúdo inócuo e nada referente a dignidade da tentativa de dar vida ao ‘Frankenstein’. Embora esta ação não tenha sido suficiente: o inócuo conteúdo das derradeiras edições da Bizz não superou o material (tanto físico como qualitativo), a antiga fama da ‘marca’, e o efeito de consumo de uma ‘novidade’ referentes a Rolling Stone. A última (espero!) volta da já velhinha Bizz – mas com cérebro tão adolescente quanto o do público leitor da revista Atrevida, a tal publicação destinada ao público feminino que deu capa ao NX Zero à esquerda.

Veja que a revista Rolling Stone Brasil deu uma capa para a mesma banda que uma revista de segundo escalão voltada para as ninfetinhas descerebradas deste país. É ou não é uma lástima? Não me venha com deixa-disso, que a revista tenta capturar este público para introduzir os outros assuntos relevantes da edição em suas cabeças cheias de cabelos sem nenhum fio branco, mas tingidos inúmeras vezes, e com isso elevar a bagagem cultural dos futuros votantes do país. Quiçá este pretenso público, ao adquirir a edição da Rolling Stone Brasil, lerá mais do que a matéria com o NX Zero à esquerda. Não me venha com essa de que o NX Zero à esquerda merece capa porque tem feito um trabalho musical consistente, impregnado de conteúdo relevente, contestador, ou que suas letras espelham os dilemas da juventude (juventude esta que tem mais preocupações em que roupa vou usar para ir ao shopping center, do que com o resultado do desmatamento em grande escala da floresta amazônica, ou com a desigualdade social reinante em Angola, se eles mal se importam com a desigualdade que mora ao lado de suas residências). O “bom-mocismo-politicamente-correto” que não leva os adoslecentes para o mal caminho não serve nem para refletir sobre o próprio produto ‘artístico’ que consomem. Vão à merda com essas passividades!!! A banda poderia até ocupar as páginas do periódico em uma matéria, de no máximo uma página, que relatasse o lançamento do álbum, mas por favor, não como matéria de capa, ocupando várias páginas, e utilizando uma simulação de uma capa da edição gringa,, que rendeu comentários não só pela vestimenta dos artistas, mas por ter excluído um dos integrantes – justamente o guitarrista que tanto contribuiu para o sucesso daquela época, que desertou da banda entre a produção da matéria e sua publicação – deixando o pessoal do Red Hot Chili Peppers. O fetiche da coisa está em adquirir todo produto que tenha algo de sua banda favorita ‘da última semana’.